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O que é que o PS e o PSD nos estão a esconder?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.07.13

É altura do PS e do PSD esclarecerem os cidadãos sobre a verdadeira situação do país à altura do PEC4 e a verdadeira situação do país hoje. Reparem que recentemente o ministro das Finanças do anterior governo foi entrevistado e levantou alguma poeira. Por coincidência ou não, o ministro das Finanças deste governo sai com uma missiva mais do que perversa: fiquem aí com o menimo nos braços que eu já ia perdendo a minha reputação.

 

O PM aceita esta despedida à francesa e naqueles termos sem hesitar, mas faz uma fita quando o seu parceiro de coligação, que deve ter percebido que iria ser atirado às feras, e consigo o CDS, tratou de se tentar salvar e ao CDS.

Porque saiu o ministro das Finanças?, é a pergunta que ainda não foi respondida. É a informação que nos falta.

E já agora, em que situação está o país?

E também, em que situação estava o país na altura em que este governo tomou posse?

 

O que é que o PS e o PSD nos estão a esconder?

Sem essa informação, não se podem apresentar para eleições. Em que termos e com que bases vão os cidadãos votar?

 

Mas independentemente dessa informação, falta-nos a clarificação europeia, para onde vai a Europa das estrelinhas em fundo azul? Para uma maior representatividade dos cidadãos europeus? Para uma economia saudável? Para uma liderança inteligente e com visão? Ou, como se teme, para uma fractura norte-sul, ricos-pobres, radicalização política, conflito social, e uma liderança baseada na chantagem financeira?

 

Quanto ao CDS, pode aproveitar o próximo Congresso para fazer o balanço dos 2 anos de governo, mas também reflectir de que forma pode fazer parte da gestão governativa sem trair os eleitores. Pensar que o CDS pode passar sem Portas e Portas sem o CDS é um erro. Nobre Guedes, o conciliador, percebeu-o bem. Pires de Lima é uma possibilidade interessante para preservar Portas. O eurodeputado Diogo Feio também me parece pragmático. Quanto a Nuno Melo, lembra-me demasiado um forcado para o imaginar a interagir com os restantes elementos da equipa. Portas é muito organizado e pode aproveitar o próximo ano para redefinir as prioridades do CDS e mobilizar a sua atenção para uma Europa em crise cultural e económica, exercer a sua influência sem os actuais constrangimentos, e evitar que o partido se transforme num clone do PSD e/ou do PS. Porque, convenhamos, é essa a percepção de muitos dos seus eleitores. O actual CDS atira-se ao poder como gatos a bofes, tal como o PS e/ou o PSD. Aposto que lhes seria indiferente governar com Passos ou Seguro.

 

 

 

 

publicado às 14:49

Nos bastidores do teatro político

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.07.13

Está uma pessoa posta em sossego (distante de notícias televisivas e do acesso à internet) durante uma semana e quando volta ao mundo dominado pela cultura do circo e do lixo, o país está suspenso, os mercados estão nervosos, os políticos estão loucos, os comentadores estão atabalhoados.

Mas para quem anda aqui há uns tempos a observar a política nacional e a política europeia já nada a surpreende.

 

Caros Viajantes, estão todos a olhar para o palco e ninguém se lembra de olhar para os bastidores. É nos bastidores que se está a passar o teatro que conta!

A personagem principal não é Portas, é Gaspar. A segunda personagem que conta não é Portas, é Barroso. A terceira personagem que conta não é Portas, é Passos. Mas por artes mágicas da política nacional e internacional, Portas é o boneco na praça onde todos querem ir dar uma traulitada.

 

 

Vamos tentar ver este teatro na perspectiva do cidadão comum:

 

Então estes ministros foram passear a Alcobaça e beber uma ginginha e interromper um casamento, para dias depois o ministro das Finanças se demitir?

O ministro das Finanças decide demitir-se de repente porquê? Já cumpriu a sua missão?

Então o ministo das Finanças só agora é que se lembra que tem uma reputação a defender? E reputação perante quem? A Europa de Bruxelas acha-o o máximo. A Alemanha acha-o o máximo. Vai ser certamente catapultado para a estratosfera da finança, tal como Constâncio o foi depois de não ter visto nada nem supervisionado nada. Portanto, a sua reputação como argumento para evitar a tal reforma incómoda dos cortes de 4 mil e 700 milhões?? A sua reputação internacional, na troika, na finança, em Bruxelas, na Alemanha, está intacta e imaculada. OMO lava mais branco e tudo.

 

O cidadão comum que estiver atento também terá fixado o cinismo de Barroso quanto às expectativas do país relativamente às políticas de crescimento económico: Não se pode esperar de Bruxelas o que depende dos países membros... Pois, para que é que serve Bruxelas afinal?

E não é que os croatas aderiram a uma união europeia desequilibrada e adulterada?

 

 

A meu ver, isto que nos está a acontecer não é nada que não estivesse já a formar-se nos bastidores: foi entregue a Portas a responsabilidade do guião da reforma do Estado que, segundo o FMI, deveria conter cortes no valor de 4 mil e 700 milhões.  O ministro das Finanças sai de cena fresquinho que nem uma alface, depois de destruir a economia nacional sem a substituir por outra, agravar o desemprego, aumentar a emigração, limitar as perspectivas futuras dos jovens, matar a classe média e empobrecer o país. E em vez de se referir a esses danos na vida concreta dos cidadãos só se refere à sua reputação?

 

 

Portas é que se deixou entalar numa situação inaceitável:

 

1º - como foi possível ter aceitado ver-se privado da diplomacia europeia que foi entregue ao ministro das Finanças?

2º - assim como ter sido o nº 3 do governo?

3º - ter escolhido 2 ministros jovens e inexperientes pelo CDS?

4º - ter andado a viajar na diplomacia do mercado das exportações deixando o país entregue a uma equipa exterminadora?

5º - só se ter preocupado com as exportações desprezando o mercado interno?

 

A partir daqui, o que se poderia esperar? Sempre que o PSD esticasse demasiado a corda, o CDS viria à praça dizer que não deixaria?

 

 

Mas o que o cidadão comum parece ignorar é que isto está tudo ligado: Bruxelas, Alemanha, troika, mercados, ministro das Finanças. Barroso teve mais responsabilidade no que se está agora a passar do que se pensa. Sampaio. Constâncio. O anterior PM que também foi bom aluno de Bruxelas. Passos, outro bom aluno de Bruxelas, da Alemanha e da troika. O ministro das Finanças que saiu de cena.

 

Portas pouco tem a ver com isto mas vai ser apontado como o responsável. É sempre assim. O CDS que se quer manter no poder e ter um bom resultado nas Autárquicas vai ignorar o óbvio e insistir em ser a muleta de Passos. Até se transformar no bode expiatório do PSD.

 

Eleições já? Tudo aconselha a esperar até às eleições europeias. Estamos entalados na UE. É aí que tudo se vai jogar.

 

 

 

...

 

 

Anexo 1: A figura colectiva do bode expiatório está tão entranhada na cultura portuguesa que ainda funciona como escape para o poder. E os cidadãos ainda caem que nem patinhos nesse estratagema, é incrível. Durante uns tempos foi o ministro Relvas, logo que saiu voltaram a acertar no ministro das Finanças, mas agora que este saiu já estavam a apontar para Portas. E afinal, tudo para desviar as setinhas dos verdadeiros responsáveis: Barroso quando abandonou o país e Barroso enquanto Presidente da CE; Sampaio quando pregou uma partida a Santana e aos eleitores dessa maioria para catapultar o ex-PM e o PS; o ex-PM; o seu governo; quem promoveu o consumo e os cartões de crédito; quem facilitou a compra de casa; Constâncio que nada viu nem nada supervisionou e Constâncio promovido ao BCE; quem fugiu ao fisco; quem utiliza as off shores; quem pediu a troika; quem viu na austeridade uma oportunidade; o actual PM; o ministro das Finanças que saiu 2ª feira; ... E a lista pode ser completada pelos mais atentos dos Viajantes.

 

Anexo 2: O cidadão é sempre o último a saber e todos lhe ocultam a verdade. A comunicação social martela o que lhe dão. O governo agora até lhe oferece a informação mastigada em briefings em on e em off (!) agora interrompidos por motivos óbvios. Em todo o caso, posso desde já adiantar o que se prepara nesses briefings: o desemprego está a diminuir umas décimas... (!) estamos já na fase da recuperação económica... (!!) o pior já passou... (!!!) agora é só mais estes cortes e são mesmo os últimos antes de se baixarem os impostos... (!?) já estamos a ir aos mercados... (!?!)

 

Anexo 3: E não é que a CE também afivelou o espanto da espionagem americana? Não vêem os filmes do Matt Damon? Admitir sequer que nada sabiam é risível! E da forma como têm tratado os cidadãos europeus falar de transparência e de democracia mais risível ainda é! Na verdade, os únicos que não se incomodam com a invasão da sua privacidade é quem nada tem a esconder. Quem utiliza a internet já sabe que está sujeito a uma espreitadela. Foi por sentir essa ausência de privacidade e não controlar a replicação de mensagens, e/ou os contactos paralelos, que saí do Facebook pouco depois de ter entrado. Recentemente aderi ao Twitter que me dá uma sensação agradável de consciência abrangente, de sermos  uma partícula de um organismo vivo, a humanidade, e a sua tentativa diária de viver e deixar viver. Quanto aos e-mails, quem lá for ficará com informação sobre links úteis e conselhos práticos, nada que viole a confidencialidade de alguém. De resto, gosto do meu cantinho e sei que poucos são os Viajantes que aqui passam pois devem achar isto da observação e análise da política nacional e europeia uma verdadeira seca. (Quanto à escuta das chamadas telefónicas, isso já é mais problemático. É como espreitar por buracos de fechadura ou abrir correspondência alheia).

 

...

 

Anexo 4: Ontem ainda vi Ana Sá Lopes apontar os holofotes para a Europa e as exigências irreais da troika, referindo-se aos nossos parceiros europeus que mais parecem inimigos. Até hoje a maioria dos jornalistas tem revelado um conformismo mental relativamente à mensagem oficial: temos de honrar os nossos compromissos, a credibilidade depende da austeridade, os mercados não gostam de instabilidade, blá blá blá. É esta a versão oficial que nos tentam impor, mas já percebemos que esta austeridade desestruturou em vez de regenerar, dividiu em vez de unir, desanimou em vez de mobilizar. De tal modo é perversa que vemos o objectivo final, voltar aos mercados, cada vez mais longe. Há qualquer coisa de profundamente errado nisto tudo que está bem representado na atitude do PM e do ministro das Finanças. Porque a saída do ministro das Finanças não foi apresentada aos cidadãos nem explicada aos cidadãos nem preparada como uma remodelação mais profunda. É apenas um abandono antes do desastre. Aliás, Manuela Ferreira Leite teme o pior, como disse ontem no Política Mesmo da TVI24.

Estas duas mulheres fixaram a atenção no essencial: Ana Sá Lopes na Europa, no BCE, na troika, nos parceiros europeus, nos mercados, Manuela Ferreira Leite na saída do ministro das Finanças sem uma explicação ao país da verdadeira situação das finanças. Alertou ainda para os riscos dos tais cortes desmantelarem a administração pública que estrutura toda uma sociedade e o seu funcionamento.

Logo a seguir, a Constança Cunha e Sá que já não confia na possibilidade deste governo se manter, ainda ouviu 3 perspectivas diversas no programa Prova dos 9. Fixei-me no diálogo de Paulo Rangel com Fernando Rosas em que estavam a dizer a mesma coisa sem se aperceberem: a situação da Europa é preocupante para a democracia, qualquer coisa diferente está a emergir e ainda não se sabe como vai ficar. Ambos desejavam, penso eu, que o que surja de diferente seja mais representativo dos cidadãos, mas houve ali um momento zen em que não estavam a perceber essa coincidência.

 

Anexo 5: As eleições não adiantariam nada para já. Pelo que se tem visto das diferentes versões dos ministros das Finanças e de secretários de Estado de um e de outro governo, há explicações a dar por ambos os partidos, PS e PSD. Sem sabermos que terreno pisamos, em que situação estava o país e como chegámos até aqui, não sabemos em quem votar. Também o CDS tem de fazer um balanço da sua participação de 2 anos num governo em que absorveu a cultura de base: austeridade para pobres prosperidade para ricos. Digam o que disserem, a marca está lá e não pareceram muito incomodados por essa máxima não colar com a protecção do contribuinte, do reformado, da classe média.

 

 

 

 

 

publicado às 21:52

Entre o aventureirismo e a prudência, é melhor escolher a prudência

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.05.13

A vantagem de ouvir atentamente as vozes dissonantes é que, mais cedo ou mais tarde, vou conseguindo perceber uma camada da nossa realidade colectiva que nos tem sido interdita.

Os obstáculos culturais e políticos ao nosso desenvolvimento equilibrado como comunidade, que se quer democrática, começam a ser identificados. Neste momento são os grupos que não estão a ser afectados pela austeridade.

 

Esta percepção de mais uma camada da realidade começa sempre por perguntas que coloco a mim própria. Por vezes estas perguntas ficam adormecidas por uns tempos e voltam à superfície com algum episódio. Aqui vão algumas delas:

- Porque é que os maiores discordantes com o comunicado do Conselho de Estado são precisamente Soares, Alegre e Sampaio?

- Porque é que se quer fragilizar o Presidente através de comentadores políticos?

- A quem se estava a dirigir o Presidente no seu discurso do 25 de Abril quando aconselha a não se manipular os cidadãos com promessas sem garantias?

- A que status quo se estava a referir Carlos Moedas quando fala na oportunidade da austeridade como choque cultural?

- Porque é que se quer menorizar qualquer medida que tenha impacto positivo no crescimento económico, mesmo que tardia e mesmo que sugerida pelo PS, assim como qualquer investimento que se dirija à economia?

- Porque se escondeu Passos por trás de Gaspar?

- Porque quer o CDS passar como um menino de coro que nada teve a ver com estas medidas dirigidas aos mais frágeis que não se podem defender nem escapar à máquina fiscal?

- Porque é que ainda não se conseguiu controlar a verdadeira evasão fiscal?

- Que grupos permanecem incólumes à austeridade?

- Finalmente, porque é que o PS não assume os erros do governo anterior?

 

Todas estas perguntas se tinham misturado numa espécie de sopa da pedra e nada se distinguia naquele caldo. Gaspar (pelo governo), e o Presidente, tinham passado a ser os alvos da generalidade dos comentadores e dos cidadãos.

Passos protegera-se na sua toca. Portas fizera o papel de menino de coro. Os técnicos deram a cara pelas suas medidas. E o Presidente daria a protecção divina. Seguro ainda não constituía uma garantia de mudança, mas eis que já se falava numa possível composição PS-CDS. Como se nada se tivesse passado no governo anterior nem o CDS tivesse revelado entretanto a sua verdadeira natureza.

 

Quem fica aqui pessimamente na fotografia? Quem manipula as massas afinal? Quem quer passar pela austeridade sem um beliscão? Quem simula um rosto de preocupação e palavras vazias, indiferente ao que se passa com os cidadãos?

Precisamente, os partidos políticos e a generalidade de deputados que servem interesses vários em vez de representarem os cidadãos que neles votam.

Porque é então precisamente um técnico (ministro das Finanças), e o Presidente, que são os alvos como se fossem os principais responsáveis?

A quem convém esta fúria anti-governo e anti-Presidente?

 

E vamos ainda tentar perceber a que status quo se pode estar a referir outro técnico (Carlos Moedas) na conferência:

O único status quo actual são os grupos que não foram afectados pela austeridade: banca, grandes grupos económicos encostados ao Estado, e os grandes grupos profissionais e empresariais que não pagam impostos, servidos pelo Estado, protegidos pelo Estado. Por quem no Estado? Pelos partidos que têm gerido o poder político: PS e PSD, agora também com o CDS a querer entrar com o seu quinhão.

 

Pode uma democracia sobreviver a isto? Depois da austeridade, não. Portanto, a austeridade deve estar a começar a pressioná-los inevitavelmente. E de algum modo isto já está a pressionar o próprio Presidente. Porque enquanto se entretêm as massas com a possibilidade de uma mudança, e Seguro ainda não pode ser essa garantia, ninguém questiona o status quo.

 

Entre o aventureirismo e a prudência, quando se trata de vidas e de pessoas concretas em situação tão vulnerável, deve escolher-se a prudência.

 

As vozes do Conselho de Estado que apelam a eleições são vozes aventureiras: Soares, o aventureirismo megalómano; Alegre, o aventureirismo poético;  Sampaio, o aventureirismo burguês.

É fácil caricaturar o actual Presidente, não é preciso muita coragem para o fazer. Coragem é arriscar piorar a própria imagem e fragilizar o próprio papel para tentar estruturar um caos que se quer criar no país

Além disso, a quem pode interessar o desrespeito pelas instituições? Essa cultura boçal que tudo tritura nas televisões, aliás prática muito frequente do anterior governo, é um espectáculo deprimente de ver. A bisbilhotice elevada ao nível de análise política e de entrevista mas que não passa de bisbilhotice.

 

Os alvos fáceis (bodes expiatórios, manobras de diversão ou mesmo os que querem preservar a cultura democrática) foram sendo utilizados pelos manipuladores partidários para conseguir manter a sua margem de influência política e financeira, a parte estatal que lhes convém, as suas mordomias, a parte da administração pública que controlam.

 

Assim, permanecem intocáveis:

- as câmaras municipais e extinguem-se as freguesias: o poder local é que interessa, não as populações;

- a lei eleitoral não representativa: nº de deputados, conflitos de interesses, questões éticas e deontologicas, reformas vitalícias não contributivas;

- a ausência de transparência na informação sobre as PPPs, empresas públicas, as privatizações, e outras negociatas de grande promiscuidade pública e privada, as fundações, institutos vários, etc.;

- a ausência de informação sobre a situação da banca, os danos públicos do BPN, a participação no BANIF, etc.;

- a impossibilidade de responsabilizar judicialmente os danos públicos (desvios, corrupção, favorecimentos) e os verdadeiros crimes fiscais (agora até profissionais como os médicos roubam o Estado);

- ...

 

Quanto aos técnicos que dão a cara: quando ontem assisti à reunião do ministro das finanças com o ministro das finanças alemão e o anúncio de investimento de um banco alemão na economia dirigido aos jovens pelo que percebi, se vivêssemos numa situação normal, consideraria uma iniciativa muito simpática, solidária e inteligente. Afinal, a Alemanha teve sempre no governo português um bom aluno, contratou muitos engenheiros portugueses, e até é o nosso país que lidera a aquisição de carros de luxo de marca alemã (!).

Mas não gostei do termo caso de sucesso aplicado à destruição de um modelo de economia já de si frágil sem se ter pensado na sua regeneração gradual, aos números do desemprego, aos cortes dirigidos aos mais frágeis e indefesos.

Não terá Gaspar explicado ao seu homólogo alemão a nossa verdadeira situação? O que impede um técnico experiente como Gaspar de dizer a verdade? Porque aceita incorporar a fórmula austeridade que é impraticável no nosso país e incapaz de ser bem sucedida?  

 

Afinal, quais são os nossos verdadeiros obstáculos culturais?, os nossos adversários concretos?

 

E voltamos aos partidos políticos que nos têm governado, não há volta a dar. Aos interesses que defendem. Às excepções que protegem. Às verdades que não nos dizem.

É fácil criticar agora o Presidente que, bem ou mal, tenta manter alguma normalidade numa situação cada vez mais anormal e desequilibrada. Mas alguns responsáveis tentam agora ficar bem na fotografia: o ex-presidente Sampaio é um deles, Durão Barroso é outro, o filósofo ex-PM outro ainda, Passos finaliza a fila. Isto na nossa história mais recente, claro. Porque se recuarmos vamos reiniciar na revolução dos cravos que cavalgou a rebeldia cultural da época, depois teríamos de falar no PREC, nas condições da integração europeia, na economia do betão, no empresariado do jipe e do mercedes, etc. etc. etc.

 

Afinal o que tinha feito Santana de mal para ser boicotado por Sampaio? Tinha uma cultura democrática e tolerante, via o país como um todo e os portugueses como uma comunidade. Quando pensou deslocar o ministério da agricultura para Santarém ai Jesus credo!, temos de o apear e é já, embora ele já estivesse a prazo quando foi nomeado. Agora Sampaio quer derrubar o actual governo. Pergunta-se porquê. Estarão agora os técnicos preparados para limitar algum interesse de V. Senhoria?, e a outros baronatos do status quo?

 

Não é só o BCE, a CE, o FMI, a Alemanha, que nos criam obstáculos. Temos os nossos principais obstáculos culturais cá dentro, os maiores adversários cá dentro, e é esse o grande desafio a que o Presidente se deve ter referido de forma cirúrgica no discurso do 25 de Abril. 

Seguro referiu-o no congresso do PS, que há um distanciamento entre os cidadãos e os partidos, uma falta de confiança, mas palavras não são ainda garantia de o conseguir ou sequer de o poder tentar. Afinal, teve de começar por unir, pacificar, e ainda não falou no passado recente da governação PS.

 

 

 

publicado às 10:11

Refundação do Estado = reedição do Estado Novo para pior

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.05.13

O governo actual conseguiu a proeza de provar que as viagens no tempo são possíveis! Conseguiu teletransportar-nos a todos para o ambiente cultural do Estado Novo, a moralização do Estado Novo, a organização financeira do Estado Novo, a estratificação social do Estado Novo, a submissão pelo medo do Estado Novo. 

Nesta perspectiva, tudo aquilo que consideramos insucessos, não acertou nenhuma previsão etc., são sucessos. O país foi ajustado e com ele os seus cidadãos. A nova economia, a que querem fazer emergir da destruição desta, vai basear-se (segundo o seu plano) numa desvalorização drástica do trabalho. Uma das formas de obter esse objectivo era, precisamente, aumentando o desemprego e a emigração. Estes dois objectivos tinham de ser concretizados.

O alibi: o défice e a dívida pública. A gestão do anterior governo garantira-lhes isso.

 

A UE, a CE, o BCE, os mesmos que vieram ensaiar a farsa em azul nos Jerónimos em 2008, os mesmos que excluiram qualquer participação dos cidadãos europeus nas grandes decisões, os mesmos que pensaram construir uma Europa sem as pessoas (que são, afinal, a razão da Europa, e são, afinal, o motor da economia), quase conseguiram o sucesso total: uns estados federados à States, em que o BCE seria a Reserva Federal.

Os States aguentam-se como império porque têm um poderio bélico, e comportam-se cada vez mais como os antigos impérios: promovem guerras no exterior (George Orwell antecipou, Gore Vidal explicou) e a sua diplomacia está praticamente reduzida aos serviços secretos e à propaganda estilo Hollywood, a ficção para consumo de massas.

Esqueceram-se estas alminhas (valha-os Deus!), que somos povos muito antigos, com muitas memórias, que nem a cultura do circo conseguiu ainda apagar. Eles bem tentam, a ficção diaria nas televisões, o futebol, tudo para adormecer consciências. Por isso é que isto tem de passar por uma cultura totalitária, não democrática.

 

 

Vamos lembrar um pouco da nossa história, a que fui registando aqui:

 

O anterior PM já foi um bom aluno de Bruxelas. E antes dele, já um PM tinha abandonado o país à sua sorte para ir para Bruxelas. (A história do país está cheia destas escolhas das elites, desde a nobreza antiga quando se colocava do lado de Castela, mas esses eram seus familiares.) Pois bem, o ex-PM começou logo por ser um bom aluno de Bruxelas. Começou o trabalho que este governo iria finalizar, há uma sequência, uma lógica intrínseca, um plano:

- o desemprego disparou;

- a emigração disparou aos níveis dos anos 60, agora deve estar acima disso;

- os primeiros cortes, ainda tímidos, iniciaram-se, do lado dos mais vulneráveis;

- a concentração de poderes governamentais ficou sem controle, a nível financeiro e a nível da segurança;

- tomaram-se decisões com impacto enorme na vida dos contribuintes: desorçamentação, ausência de supervisão bancária, nacionaizar o BPN, etc.; 

- o estilo arrogante e revelador de uma cultura anti-democrática acentuou-se.

 

Reparem como os únicos sucessos se mantiveram: níveis elevados de desemprego e de emigração. E pelo caminho destruir a economia caseira. Porquê?

Porque esses são os meios eficazes para desvalorizar o trabalho e criar uma economia competitiva com a China e outros mercados. Manuel Pinho que não ficará conhecido na história como discreto e reservado, disse-o claramente. Claro que veio logo desmentir essa afirmação e todos esqueceram, afinal quem poderia levar muito a sério alguém que tinha criado a marca Allgarve?

Só que todos esqueceram o óbvio! E ainda não era altura de tentar vender uma ideia que não seria aceite porque era voltar décadas para trás. No entanto, o plano sempre esteve lá. Na Europa que se pavoneou nos Jerónimos e nas nossas elites políticas que servem os tecnocratas europeus que servem as elites financeiras.

 

Continuemos, pois:

 

Entregue o testemunho da governação ao PSD com uma perninha do CDS, por um PR que, também ele, partilha essa cultura tecnocrata europeia, da economia submetida à finança, da necessidade de ajustar o país e os cidadãos, pobrezinhos mas honrados, era só continuar.

O guião até era simples (tal como o guião de Salazar em 1926): estamos na bancarrota e a prioridade é pôr as contas em ordem. Pagar aos credores é a prioridade. Assim se conseguiu fazer aceitar repetidas subidas de impostos, taxas, subidas nos serviços públicos e cortes. Ainda se lembraram da TSU que poderia acelerar o processo, mas como não foi aceite por demais evidente, tratou-se de amedrontar e chantagear a população já assustada e  desmoralizada.

Agora aí está o resultado. Nem o défice baixou, nem a dívida baixou, mas foram conseguidos os objectivos: desemprego até níveis aceitáveis, emigração a ajudar, para garantir a desvalorização do trabalho. Julgo que esse é o gráfico de que o ministro das finanças mais se orgulha, vai uma apostinha? Foi o único gráfico credível e em que acerta: a curva vai subir até 2017...

António Borges, os grandes grupos económicos, a banca, o tecnocracta de Bruxelas na pasta das finanças, o PM, o PR, praticamente todo o PSD, quase todo o CDS, e uma parte do PS (Sócrates e derivados), só podem estar satisfeitos com estes resultados. Um sucesso.

 

Hoje parece que os cidadãos vão escutar a voz do tecnocrata de Bruxelas, mas os mais velhos irão recordar sem dúvida uma outra voz, a do pobrezinhos mas honrados, caladinhos e obedientes (aliás, muito na linha do discurso presidencial do 25 de Abril), quando a voz disser pau-sa-da-men-te: ou isto ou a saída do euro.

 

A chantagem é esta: se precisam do Estado e dos serviços do Estado, têm de os pagar. Só que os contribuintes e os pensionistas já pagaram e já sustentam esses serviços do Estado, já fizeram a sua parte.

A parte do Estado que ainda não pagou e não quer pagar, porque é nesse Estado que se movimenta a elite política e financeira, é nele que vive encostada, desse Estado ninguém nos fala.

 

Se a Refundação do Estado fosse para levar a sério, um programa credível, a pensar nos cidadãos e na sustentabilidade do Estado, dos serviços que presta aos cidadãos, tinha-se começado por cortar na despesa dos serviços centrais, nos institutos e fundações, nas PPPs, na gestão das empresas públicas, na grande fraude fiscal, no nº de assessores e avençados, nas câmaras municipais, na assembleia da república, etc.

Mesmo que, numa primeira fase em 2011, se tivesse de subir impostos ou proceder a algum corte temporário, todo esse trabalho de casa de cortar na despesa do outro lado, teria de estar iniciado.

Mas não foi essa a estratégia seguida, porque essa não garantia o verdadeiro objectivo: o ajustamento do país e dos cidadãos aos interesses de uma elite política e financeira, unha e carne com os tecnocratas europeus que servem os interesses de grandes grupos económicos e financeiros.

 

 

Onde é que neste plano cabem a democracia e os cidadãos? Não cabem. Aliás, o próprio Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo mais recente, considera que esta estabilidade já é uma ferida infectada a transformar-se numa gangrena. Está tudo a cair de podre. Que nestas circunstâncias é melhor uma sacudidela, umas eleições em que os cidadãos sintam algum poder, que participam, do que isto gangrenar. Considera que a democracia já está em risco.

A sério que ainda pensei que a estabilidade dava pelo menos por uns tempos algum sossego a quem vive o dia a dia amedrontado e angustiado, mas talvez o Pacheco Pereira tenha razão. Estar todos os dias à espera de mais más notícias é o pior que pode acontecer às pessoas. É a violência por cima da violência.

 

 

Incrível como um país antigo e com uma cultura milenar se sujeita a estas elites, que já vêm de longe, e à sua cultura mesquinha e medíocre!

Como é que as pessoas se fixam nas palavras ocas como "crescimento económico" em vez de verem o plano por trás: aumento do desemprego e da emigração para baixar drasticamente o valor do trabalho

 

E ainda me vêm com o socialismo, a social-democracia, a democracia cristã, a revolução dos cravos? Onde está a democracia? A cultura democrática? A minha primavera ainda é a primavera marcelista e estou a confirmar que estou à frente no tempo do nosso tempo!

 

 

 

 

publicado às 10:45

Este governo e este PR tomaram posse comprometendo-se a servir os interesses do país. Mas a sua acção tem sido contraditória com o que assinaram e com o que dizem defender.

 

O governo com as suas conferências de imprensa e insistência nas mesmas soluções, cortes nos mais frágeis e nos mesmos de sempre, a carregar sempre na mesma tecla mesmo sabendo antecipadamente que essa repetição era inconstitucional, repetindo a propaganda da austeridade nas televisões através dos comentadores de serviço, mantendo em funções um ministro das finanças que já é percebido pelos cidadãos como um funcionário de Bruxelas, o que pretende a não ser a instabilidade política?

Primeiro ainda terá tentado neutralizar a oposição, o convite da RTP ao ex- PM para comentador político não foi inocente pois por uns dias o secretário-geral do PS pareceu agitar-se na cadeira. Falhada esta estratégia, ainda havia a hipótese do consenso alargado, mas também não pegou. Finalmente, ainda tem a instabilidade política de reserva, e é ver as frotas de carros (de marca alemã) alinhadas para os conselhos de ministros de 11 horas (!) e as informações que vão transpirando para fora (!) a revelar que isto está por um fio. Mas como isto já não funciona como chantagem política, já ninguém se comove, talvez funcione como justificação para algum deles abandonar o barco...

 

Só que se esqueceram que os cidadãos não estão para aturar mais instabilidade e insegurança, nem cortes nos mesmos, nem exemplos de gestão danosa, nem a manutenção do ministro das finanças. Querem aquilo que o governo ainda não conseguiu garantir: estabilidade e responsabilidade, resultados visíveis após tantos cortes nos mesmos, a economia a mexer, sinais de uma mudança cultural dos gestores políticos e financeiros, se têm de cortar que cortem nos interesses dos grupos protegidos, que façam o trabalho que lhes compete.

 

 

O PR falou em estabilidade, mas o discurso foi percebido como provocador para a oposição e para os próprios cidadãos. Se era estabilidade o que o PR pretendia defender, então porque foi percebido exactamente o contrário? E que cultura de base reflecte este discurso? Ausência de vitalidade, ausência de esperança, ausência de futuro. Claro que a partida da troika não acaba com a necessidade de recuperar a economia. Mas esta estratégia do governo é que não dá para a reanimar sequer. As pessoas concretas estão ausentes do discurso, apenas como pretexto para dar recados à oposição: não explorem a angústia das pessoas. Ora bem, quem anda a explorar a angústia das pessoas não é quem as assusta todos os dias com cortes e anúncios de cortes?, quem lhes retira a esperança e o futuro?, quem lhes coloca aos ombros toda a culpa dos desvarios de governos sucessivos desde o seu, o período do cavaquismo?, passando pelo pântano do guterrismo, seguido pelo abandono do barco do barrosismo, para dar tempo ao socratismo de nos vir deslumbrar com o seu malabarismo, e dar lugar à execução final de um plano para a Europa baseado na desvalorização do valor do trabalho?

 

Lembram-se que já um ministro da economia do anterior governo do PS falava disso?, de baixar os salários para competirmos com a China? O guião já lá estava. Lembram-se como o ex-PM já era um bom aluno de Bruxelas? O plano já lá estava. Lembram-se da ausência de supervisão bancária de Constâncio, o então governador do BdP e como foi promovido ao BCE? O puzzle compõe-se a pouco e pouco.

Também aqui, se o convite do ex-PM para comentador político na RTP pretendia incomodar o PR, isso pode explicar algumas indirectas ao PS. Os actuais gestores políticos ainda revelam uma sensibilidade muito egocentrada, tudo gira à sua volta.

 

Quando se fizer o balanço 1985- 2001 (condições da integração na CE), 2001 - 2004 (adaptação à moeda única) e 2005 - 2012 (a bancarrota e a perda da autonomia) já podemos entender melhor o que se passou cá e na Europa, que estes patamares andaram juntos, e evitar voltar a cometer os mesmos erros.

 

Para já, estabilidade e responsabilidade é o que se pede aos gestores políticos: governo e PR. Porque são eles os escolhidos nas eleições, depois de nos terem dito que estavam à altura do lugar.

E estabilidade e responsabilidade é também o que se espera da oposição. Se o governo não conseguir cumprir o seu papel, se desistir da tarefa ou se voltar a colocar os cidadão nas ruas e nas praças do país, tem de haver uma equipa preparada para aceitar o desafio. Preparada = em colaboração com a sociedade civil.

 

Portanto, se querem assustar os cidadãos que já cumpriram a sua parte e assim criar instabilidade, pensem de novo.

V. Ex.cias façam o favor de cumprir a vossa parte, atirem-se ao trabalho, revelem responsabilidade, e apresentem resultados.

O governo: se só sabe cortar, corte nos sítios por onde deveria ter começado. A estabilidade passa por respeitar os cidadãos que querem tréguas desta guerra psicológica, deste circo nas televisões, da voz do ministro das finanças.

O PR: é o mediador de possíveis encontros, acordos, negociações. Antes de discursar, é favor pedir a um especialista para lhe rever o texto.

A oposição: Ter a calma necessária para não se deixar provocar. Estarem atentos, alerta e garantir alguma estabilidade. Se o governo resolver provocar uma nova agitação social, tem de existir uma parte da organização política com a responsabilidade de manter alguma estabilidade. Pode ser que o governo atine. Pode ser que mude o ministro das finanças (o rosto da austeridade) e o da economia (que perdeu a credibilidade ao deixar esvaziar as suas funções). Pode ser que isto se aguente pelo menos até Setembro. Nessa altura já há as autárquicas.

 

 

 

 

Algumas horas mais tarde:

 

De facto, o governo, digo, o ministro das finanças resolveu esticar a corda e provocar reacções, na sua postura e atitude na comissão de inquérito. Reteve um documento importante, o DEO, da estratégia orçamental, e colocou, de forma ameaçadora, se não se pode aumentar impostos então vai-se pela despesa. Nada de novo. Com a mesma arrogância e indiferença a que nos habituou. É a repetição da chantagem e de tentar instilar o medo nos cidadãos, uma estratégia fria e calculada de provocar uma reacção que enfraquece quem lhe responder à letra.

Há muitas formas de violência e esta é uma delas. Uma espécie de violência psicológica mas que tem efeitos na vida das pessoas como se de uma guerra se tratasse. Nesse sentido, os tais cortes na despesa deixados em suspenso, assim friamente e em tom de ameaça, revelam uma indiferença que se torna até perversa.

 

É uma forma de violência fria e calculada a que não estavamos habituados. E com a qual ainda não aprendemos a lidar. Mas é bom que aprendamos depressa porque é com estes espécimens que teremos de lidar nos próximos tempos: tecnocratas europeus e gente que serve interesses financeiros, e que tem um plano para a Europa e para cada um dos países intervencionados ou apoiados.

 

 

Para concluir o dia de hoje com uma reflexão:

 

Espero que amanhã as manifestações na rua sejam mais de união das pessoas, da confiança em si próprias e na sua capacidade de sobrevivência, e que juntas se irão preparar para lidar com esta estratégia da violência, do que simples protestos.

Estamos para além do protesto, estamos já na fase da defesa da vida, porque já é de defesa da vida que se trata, de sobrevivência das pessoas.

A agitação social, sobretudo quando reactiva a provocações e ao esticar da corda, só enfraquece o mais fraco da equação. Há que fazer o caminho para se tornar mais forte.

A democracia tem mecanismos. A inteligência e a criatividade dos portugueses, e o seu instinto de sobrevivência, hão-de criar formas inteligentes de defender a vida das pessoas e de sobreviver à troika, a esta Europa, a estes tecnocratas e a este governo.

 

 

 

 

publicado às 13:04

Uma pessoa pensa ter observado ao longo da sua vida todos os erros possíveis de gestão política, financeira e económica, que traduzem erros de natureza mais profunda, moral, ética, cultural, mental, psicológica, e verifica que ainda está longe de perceber toda a dimensão do que se está a passar na Europa e no país.

Porquê? Em primeiro lugar, porque é difícil aceitar uma explicação que não seja benigna, pois de outro modo a verdade que nos surge à frente é verdadeiramente inconcebível:

 

- Como podem existir pessoas que em lugares-chave de gestão, em que as suas decisões podem afectar milhões de pessoas concretas, de vidas concretas, não hesitam em colocar todas essas pessoas concretas, vidas humanas, em risco, para seu benefício e dos seus grupos de referência?

- Como podem existir pessoas em lugares-chave de gestão que não hesitam em colocar países subjugados à sangria da emigração, à fome, sem futuro, para seu benefício e dos seus grupos de referência?

- Como podem existir pessoas que em lugares-chave governam contra os seus concidadãos, vendendo-os, país e cidadãos incluídos, nesse plano de subjugação, para seu benefício e dos seus grupos de referência?

 

Mas é isto o que se está a passar na Europa e no país. Só assim se compreende que os erros cometidos por gestores políticos e financeiros, em lugares-chave, tenham sido premiados e não responsabilizados.

Exemplos:

 

- ida de Durão Barroso para a presidência da CE, abandonando o país à sua sorte numa altura decisiva para a sua recuperação. (O resultado dessa saída já era previsível e já estava a planear-se por detrás das cortinas do então PR: entregar o governo de novo aos socialistas, ao tal "pântano"). Entretanto, ainda lá continua depois de reconduzido;

- ausência de supervisão bancária do então governador do Banco de Portugal, Constâncio, que além de inventar um número para o défice (6,83 o constancio number), foi promovido para o BCE;

- o anterior PM, depois de ter levado o país à bancarrota, aí o temos como comentador da televisão pública e dizem, com ambições de uma candidatura à Presidência (!);

- o ainda ministro das Finanças baseou tecnicamente a receita da austeridade num estudo de dois economistas que agora se veio a verificar ter um erro de excel (?) e não foi admoestado sequer, lá anda por Washington enquanto por cá colocaram dois ministros, um deles a apelar ao consenso. (O estudo dos dois economistas em que se baseou o ministro só pode ter sido encomendado e preparado já com o erro incluído pois a tese que defende, sobretudo a que prevê a animação da economia mal se baixa a dívida para menos de 90% (!?), parece mesmo saída de um gabinete de tecnocratas. Até porque, convenhamos, a austeridade não permitiu baixar a dívida, antes a aumentou. E segundo, todos sabemos intuitivamente que baixar drasticamente o nível de vida das famílias contrai a economia, logo, depois da economia destruída onde está a animação possível?)

 

 

E entretanto, nesse processo, há crianças com fome no país, há velhos desprotegidos no país, teme-se que actualmente já nem todos tenham acesso a cuidados de saúde nem acesso à educação. Trata-se da vida concreta de pessoas concretas. Nada que lhes diga realmente respeito.

 

Como tentarei demonstrar em breve, os políticos precisam tanto ou mais do Estado do que os cidadãos. Eles é que vivem exclusivamente do Estado, as suas carreiras dependem directa ou indirectamnte do Estado, assim como os grupos de referência que realmente representam. Os cidadãos já perceberam isso. Já estamos na fase do Eles e Nós.

 

 

 

publicado às 16:05

O teatro político de um sistema feudal que colonizou o país

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.04.13

Há muitas formas de olhar para a nossa situação colectiva actual, de país entalado na Europa a pagar a credores a irresponsabilidade de um sistema político que serve determinados interesses, a começar cada um pela sua vidinha, desde os anos 80.

 

Escolho a perspectiva que hoje, passados tantos anos a observar de forma distanciada o exercício do poder neste país "colonizado", me parece a mais fidedigna e abrangente:

A democracia prometida é uma farsa, como poderei desde já adiantar, quando não há verdade. Sem verdade não há confiança. E sem confiança não há representação. Sem representação não há legitimidade. E sem legitimidade não há democracia. E isto vale para todos os governos, PRs, e PMs dos anos 80 até hoje. Também vale para todos os partidos e sindicatos e afins. E para gestores de empresas públicas e PPPs. E também para jornalistas (com raras excepções), comentadores políticos e económicos (com raríssimas excepções), entretenimentos vários, telenovelas incluídas, todo o circo a que temos direito.

Todos fazem parte integrante de um sistema, um sistema que poderemos equiparar a um sistema feudal porque é disso que se trata: há os senhores feudais, os que os servem, os que servem os que os servem, as ramificações, a rede, os avençados, os aspirantes, os serviçais.

 

Como o poder legítimo de uma democracia tem de ser constantemente avaliado e negociado em debates e acordos abertos à sociedade em geral, e isso não garante a estabilidade do poder, tratou-se de:

- negociar entre si o poder e os seus benefícios, cada um com o seu quinhão sendo o maior para os senhores feudais;

- servir os grupos certos, lá fora e cá dentro, os diversos interesses que alimentam o sistema como um todo;

- desempenhar cada um o seu papel no grande teatro político.

 

Se isto é assumido de forma consciente? Cada um terá a consciência pelo menos do seu papel e dos benefícios que o desempenho adequado desse papel implica. Mas haverá quem tenha acesso a mais informação ou os conhecimentos certos, os clubes privados, os grupos de topo.

 

Nesta perspectiva abrangente, não há separação entre governo, oposição, PR, Juízes do TC e Juízes supremos, gestores de empresas públicas e PPPs, empresários favorecidos, banqueiros, canais televisivos, representantes dos patrões e dos profissionais, sindicatos, comentadores políticos e económicos, e até bloggers e outros avençados e aspirantes. Todos servem o mesmo sistema e o seu teatro.

 

Assim sendo, o puzzle começa a ganhar forma, não acham? Vamos a um exemplo para fazermos uma validação desta perspectiva. Factos aparentemente separados que estão ligados entre si:

- governo dramatiza expectativa relativamente à resposta do Tribunal Constitucional;

- RTP, a televisão ainda pública, contrata o ex-PM como comentador político pro bono;

- publicita-se e comenta-se até à exaustão a entrevista do ex-PM e agitam-se as águas turvas, na Presidência e no PS;

- líder do PS perde a calma e a compostura e estraga o trabalho conseguido até então de "oposição responsável";

- governo arranja manobra de diversão com "bode expiatório", a primeira baixa governamental, para afastar a atenção do seu ministro das finanças relativamente à moção de censura do PS e ao resultado previsto do Tribunal Constituional;

- televisões entretêm-se a falar de um ministro, de uma universidade, de um relatório, de uma licenciatura;

- Tribunal Constitucional apresenta resultado da avaliação dos artigos do orçamento 2013 com a usual pompa e circunstância;

- governo dramatiza o resultado e simula surpresa;

- PR prepara clima para "governo de salvação nacional".

 

Agora? Salvação nacional? Salvação de quê?

Nesta perspectiva mais abrangente, não se trata de salvação nacional, mas de salvação do sistema político que serve os interesses de um sistema feudal. As personagens de que se fala são consensuais, o que quer dizer águas mornas pelo menos para o olhar de quem está fora do sistema.

 

Este ano 2013 promete ser bem revelador. Como uma fotografia a sair do líquido da revelação, as figurinhas começam a surgir, uma a uma, na sua verdadeira natureza e papel que desempenham.

 

O que pode um cidadão comum fazer? Observar, reflectir e agir segundo a sua consciência.

 

 

Para terminar numa tonalidade inspiradora, aqui vai uma cena de um filme que nos revela muito do que é realmente mobilizar as pessoas, inspirar as pessoas. Como referi lá em cima, trata-se da verdade, da confiança, dito de outro modo, da interacção baseada no respeito por si proprio e pelos outros. Neste filme há um memorando (completamente diferente do da troika), que se transforma numa Missão para um negócio que envolve essencialmente a interacção entre pessoas:

 

 

 

Como também vemos nesta parte do filme, o inspirado, aquele que diz a verdade, aquilo que pensa e que ninguém diz, terá os dias contados naquela empresa mas iniciará um caminho que o leva a inspirar outros e a mudar a própria cultura da actividade em questão (agente desportivo).

É evidente no filme que esta actividade está inserida numa cultura de espectáculo, de consumo de massas, mas este memorando (o do filme, não o da troika) pode aplicar-se a todas as actividades profissionais que envolvem pessoas.

 

 

publicado às 16:54

Lá temos nós de voltar ao Manual de sobrevivência do cidadão comum. Pensávamos nós que o pior já tinha passado, mas o pior ainda estava para vir. Comecemos por este orçamento. Este orçamento, à falta de melhor classificação, é delinquente e provocador, é contra as pessoas concretas e contra a economia, é mesmo sádico e desumano.

Vamos por partes:

Delinquente = porque, tal como a TSU, provocou instabilidade e insegurança, e potenciou o conflito social;

Provocador = pela rigidez e chantagem (próprias da linguagem do poder) na insistência da sua inevitabilidade;

Contra as pessoas concretas = e sempre as mesmas, as que não se podem defender, numa situação já frágil e precária;

Contra a economia = mesmo que tenham dado finalmente algum tempo de antena ao ministro Álvaro com uma medidas na mão que não convenceram, nem pelo timing nem pela sua insuficiência;

Sádico e desumano = só uma estrutura com prazer no exercício do poder que afecta milhões de pessoas, podia apresentar um orçamento miserável como este. 

 

Diversas vozes caseiras, de influência nas grandes decisões que afectam os cidadãos, têm participado activamente na propaganda deste governo (perdão, do par que decide por todos, o PM e o ministro das Finanças) e deste orçamento.

Foi preciso vir de França uma voz sensata a defender Portugal e outros países em idênticas circunstâncias, porque cá as vozes influentes seguem acriticamente a Alemanha e nem se importam de defender este orçamento. Podem utilizar o termo "doloroso" (desde que não seja doloroso para eles), para nos convencer que são pessoas compassivas, compreensivas. Mas ouvir este termo ou outros, na sua voz, ainda é mais repugnante. Mais vale estarem calados e revelar respeito pelas pessoas. Quem age contra as pessoas, deve pelo menos calar-se.

É certo que algumas vozes respeitadas, da área das finanças e da economia, têm demonstrado que este orçamento não é exequível, que matará a economia e que não reduzirá o défice.

É aqui que eu gostaria de chegar. Não é para baixar o défice, isso já percebemos, portanto atinge outros objectivos. É este o nível moral e cultural dos actuais gestores políticos e financeiros, os seus concidadãos podem passar fome mais um ou dois anos, mesmo que não seja para baixar o défice, mas porque atinge os verdadeiros objectivos: o valor do trabalho tem de baixar, o consumo tem de baixar, e assim até ao nível da escravatura. E defendem isto sem quaisquer rebates de consciência. 

Quando numa sociedade se chega a este grau de decadência moral e cultural, quando faltam lideranças com uma consciência humana, formação cristã, empatia e compaixão, os cidadãos têm de se unir e defender-se desta destruição das suas vidas.

 

Talvez nunca tenhamos estado numa situação tão complicada. Uma UE que se comporta de forma abusiva nos poderes, desequilibrada e inconsequente. Quando ouvimos o Presidente da CE dizer uma coisa hoje e o seu contrário amanhã, da forma mais ambígua e oportunista, percebemos bem que há agendas escondidas. A chanceler alemã comporta-se como se fosse a dona da Europa. E virá cá um dia destes como se fossemos uma qualquer colónia alemã. Também foi à Grécia com um discurso cinicamente compreensivo, o que é percebido pelos gregos como provocação. Mas a França tem mantido a sensatez. Esperemos que a sua voz seja ouvida.

 

 

 

publicado às 00:25

Volto a esta esplanada numa tarde de sol outonal... A esplanada está fechada há dois anos, ninguém lhe pegou entretanto. Afasto as grades e abro a porta. Uma barra de luz invade a sala. Silêncio total. Abro as janelas e olho em volta. Cadeiras empilhadas num canto, mesas a seguir, duas a duas, o balcão lustroso agora coberto de pó. Saio para o terraço mas deixo a porta aberta. Em frente, casas rodeadas de jardins, agora abandonados também. Dizem-me que muitos foram para fora, a maioria contrariados, preferiam ter ficado no seu próprio país. Nada mais triste do que uma casa fechada e um jardim abandonado. Mas nas grandes cidades é bem pior, loja sim loja não as grades fechadas, apartamentos entregues aos bancos e famílias despejadas na rua. Como na América. O sol é o único consolo quando se pensa no que aconteceu aos portucalenses.

 

Esta esplanada, Vozes Dissonantes, abriu em 2007 e acompanhou com registos, entre o racional e o emocionado, uma época de grande decadência moral e cultural. Fechou em Novembro de 2010 para não assistir ao fim de um país. Mas o pior ainda estava para vir. Ninguém, por mais pessimista que fosse, poderia esperar o pesadelo que se seguiu. De PEC em PEC, tendo o primeiro sido anunciado nas costas dos portucalenses a 13 de Maio de 2010, acabámos nas mãos de um triunvirato (credores) e de uma equipa que obedeceu caninamente a um plano diabólico (à falta de melhor designação): desvalorizar o valor do trabalho para servir a lógica da subserviência financeira (uma economia competitiva com a China) e, para isso, era preciso aumentar o desemprego sob a capa de "austeridade para honrar as nossas dívidas", para "libertar a economia" e "começar a crescer".

Independentemente das dívidas terem sido contraídas pelas equipas anteriores, sobretudo pela mais recente, as pessoas aceitaram o programa esperando os resultados prometidos. Mas o plano era outro, e as pessoas só se aperceberam do logro quando, na sua sofreguidão e arrogância (a contar com o conformismo dos portucalenses), a equipa ter revelado a sua verdadeira natureza e objectivo: a lógica da TSU era óbvia. As pessoas tinham sido enganadas, o plano era outro. Não só não haveria crescimento económico, como as suas vidas iriam piorar de ano para ano, num calvário prolongado em que continuariam a ter de emigrar contrariadas ou sobreviver com o apoio da família e da comunidade.

 

Este é o maravilhoso desenho do futuro para o país e para os seus concidadãos: criar as condições favoráveis à aceitação de uma união política europeia porque as alternativas são impensáveis. Atira-se a pessoa ao mar revolto para depois lhe atirarem com uma bóia para obedecer aos seus desígnios. Não há alternativa, não há alternativa, não há alternativa. Mas há também quem diga que nos querem mesmo atirar borda fora do euro sem podermos responsabilizar a UE, a CE, o BCE...

Seja como for, quem desenhou o plano nos gabinetes, corredores e salões do poder iluminado, político e financeiro, não tem um pingo de empatia humana, de respeito pelos seus semelhantes, de formação cristã, arriscaria mesmo a dizer que revela um perigoso complexo de superioridade. Não me refiro ainda ao par que nos governa (PM e ministro das finanças), porque este par que nos governa recebe ordens e executa-as sem hesitar. Só começou a hesitar, não por súbitos rebates de consciência mas porque, ao revelar o plano, colocou em risco a sua aplicação até ao fim: colocar-nos nas mãos da inevitabilidade da união política europeia ou a tal hipótese de nos excluírem do clube do euro. Só aí recuaram. Reparem na coincidência: numa mesma semana vemos o Presidente da CE a referir que a UE nada tem a ver com a "austeridade" (?), a Directora-geral do FMI a assumir que se exagerou na dose (??), a chanceler alemã a visitar Grécia e em breve Portugal e, para cúmulo, a UE receber o prémio Nobel da Paz (???)

 

Este é um filme de terror que tem sempre uma cena de suspense à nossa espera. Não me refiro ao OE 2013, daí já nada se espera. Ao ouvir o ministro das finanças em mais uma conferência de imprensa e depois da sua ida ao parlamento acompanhado pelo regimento de soldados e pelos seguranças, insistir na cassete tem de ser ou perdemos a credibilidade, não tenho quaisquer dúvidas em afirmar que este governo é, na sua cultura de base, na sua acção e na sua estética, fascizóide. A equipa anterior já revelava alguns tiques nesse sentido mas não chegava a este requinte.

Passo a explicar: 

- forte com os fracos, fraco com os fortes = linguagem do poder (Arno Gruen em Falsos Deuses); 

- prazer em exercer poder sobre outros, sobretudo se esse poder implica infligir danos nos mais fracos = sadismo no método, ao provocar stress, ansiedade e medo;

- o poder é exercido de forma impessoal e distante, o tom monorcódico, sem qualquer emoção = recorrer a termos técnicos como "ajustamentio" que implicam pobreza e fome às pessoas concretas (na guerra utiliza-se o termo "danos colaterais");

- cerimonial bélico, os soldados (secretários de estado) à volta do capataz (ministro) e os seguranças atrás = o poder é bélico, afirma-se pela força; 

- a propaganda do poder faz-se de forma espectacular = apresenta-se aos cidadãos com pompa e circunstância em conferências de imprensa com os enxames de jornalistas à procura da melhor fotografia e de alguma resposta, como se se tratassem de celebridades.

 

O poder fascizóide é um poder alucinado pois, no caso, já não é representativo nem aceite pela sua base de apoio, já não é democrático. Ao insistir em afrontar os cidadãos, já se prevê o que virá a seguir (ex.: a ameaça do PM a Jerónimo de Sousa no parlamento). É a lógica da linguagem do poder.

Compreende-se agora o que disse D. Januário e que tanto escandalizou as pessoas. Há a corrupção da alma, esqueceram? Foi assim que eu interpretei as palavras de D. Januário na altura: uma alma incapaz de empatia e compaixão é uma alma incompleta, uma consciência profundamente deformada. Agora percebe-se o que D. Januário quis dizer: a decadência moral e cultural dos gestores do poder político que servem interesses obscuros.

 

Precisamos urgentemente de um governo de salvação nacional e é mesmo de salvação das pessoas que se trata, constituído por independentes, com uma convicta cultura democrática e respeito pelos seus semelhantes, que amem o seu país mas sobretudo as pessoas, com uma estrutura de personalidade empática, saudável, equilibrada, que ajam com sensatez, que se afirmem perante os poderosos para defender os interesses dos cidadãos. Além de bons técnicos, precisamos de pessoas em que as pessoas possam confiar. Só assim vamos a algum lado.

Bem pode o Prof. Marcelo esbracejar que este governo tem de aguentar mais 3 anos... que não há alternativa... que o ministro das finanças tem prestígio na Europa (só se for como executor obediente da CE, da mesma CE que agora diz que nada teve a ver com o "programa de austeridade"). Mas é interessante ouvir o Prof. Marcelo porque ele transmite a mensagem dos corredores do poder (governo, Presidente e outros não identificados mas já subentendidos). Ou seja, o Presidente não quer participar na fase mais difícil da nossa vida colectiva (e já nem estou a falar do país mas das pessoas que o habitam). 

De qualquer modo, é pouco sensato querer manter no poder uma equipa que já não pode sair à rua, tal como a anterior, em que já ninguém confia, não só por ter falhado tudo o que prometeu, mas por não ter dito que isso já estava previsto, que esse era o plano.

E independentemente da total falta de confiança das pessoas, ainda acham que é defensável o país continuar a seguir o plano que o par quis aplicar seguindo instruções da CE  que agora não querer assumir que lhe deu?

 

Que a consciência do Presidente ainda lhe permita tomar uma iniciativa em defesa dos seus concidadãos na grave crise democrática que atravessamos. Que não queira ficar na história como o Pilatos e lavar as mãos quando as pessoas mais dele precisaram. Aliás, Pilatos representava Roma, ainda tinha essa desculpa. Mas as pessoas votaram no Presidente, não se pode distanciar dessa responsabilidade. As pessoas já lhe disseram claramente não confiar neste governo. Quando as coisas chegam a este ponto de ruptura não há nada a fazer. Além disso, de tal modo a nossa democracia representativa está fragilizada, que a solução a curto-prazo não se vislumbra nos partidos. Os próprios partidos precisam de se regenerar profundamente, a sua cultura de base muito pouco  democrática, mudar de gente elegível, outras caras outra formação, mudar a lei eleitoral que a torne mais representativa e próxima do eleitor. Há muito a fazer nessa área. Podem perfeitamente aproveitar dois ou três anos para fazer esse TPC.

 

 

 

publicado às 18:08

Não avisei que o chantagista volta sempre à carga?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.06.10

Sei que é irritante ouvir isto de alguém, mas não sei como dizê-lo de outro modo: não avisei que o chantagista volta sempre à carga? Pois é. Aí o têm, embora a gaguejar um pouco mais, mas ainda assim agarrando-se aos argumentos do chantagista vulgaris.

É caso para perguntar: e isto passa-se e ninguém pode impedir este abuso inconcebível? Abuso não apenas do acto em si, mas também dos argumentos utilizados.  (*)

 

E tudo isto leva-me à pergunta seguinte: até onde vai esticar o pragmatismo político do actual Presidente? O que o fará reagir? Um estrondo? Mais um susto? Uma nova subida de impostos? A escravização total dos cidadãos portugueses? A entrada do FMI (esta talvez seja mesmo a nossa salvação)? A perda total de soberania?

 

Resolve-se tudo assim, regime e tudo: o país, por este andar, fecha devido a falência e já não haverá país para um segundo mandato.

 

 

(*)  Ups! Afinal ainda é pior!

 

 

publicado às 01:05


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